“A sociedade encaretou”, diz Leandra Leal, diretora de “Divinas Divas”

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    Guilherme Sadeck/Metrópoles

    A atriz Leandra Leal, estreante na direção com o documentário “Divinas Divas”, esteve na noite de quarta (28/6) no Cine Brasília para apresentar e debater o filme. No dia do orgulho LGBT, o público lotou a sessão das 19h. A carioca fez até selfie com os brasilienses.

    Focado em oito travestis que viveram alegrias e agruras para se firmarem como artistas nos anos 1960, “Divinas Divas” tem se comunicado bem com as plateias. Tanto que venceu prêmios de melhor filme por voto popular nos festivais do Rio e SXSW (South by Southwest), ambos em 2016.

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    O longa estreou em circuito na última quinta (22/6) após dez anos de produção. “Pra mim, dirigir só faria sentido se fosse algo muito pessoal, autoral”, explica Leandra. “Divinas” está em cartaz no Cine Brasília e no Espaço Itaú (veja programação).

    As artistas travestis quebraram convenções e atraíram multidões para palcos do Rio. Um deles era o Teatro Rival, então gerenciado por Américo Leal, avô de Leandra. Hoje, o espaço é dirigido pela atriz e por sua mãe, a também intérprete Ângela.

    Antes do debate sobre “Divinas Divas”, Leandra Leal bateu um breve papo com o Metrópoles. Falou sobre como foi extrair histórias de vida das travestis e humanizá-las como personagens do cotidiano. A atriz e diretora também se mostrou preocupada com a recente onda de conservadorismo.

     

    Incriveland, Brasília!!! Sessão e debate foda de #DivinasDivas. Muito obrigada.

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    “Divinas” é a sua primeira experiência de diretora e ela traz muito de pessoal, da infância mesmo. Você conviveu com muitas dessas artistas quando criança no Rival. Como foi formatar memória e a trajetória dessas divas já em um filme de estreia?

    Sou muito feliz e realizada como atriz. Pra mim, fazer um filme dirigindo só faria sentido se fosse algo muito pessoal, autoral mesmo. Acho justo que, quando as pessoas estão tão expostas num filme, o documentarista também se exponha. O ‘Divinas’ é a história delas. Mas também a história do teatro da minha família, da minha vida.

    Artistas como Divina Valéria e Eloína dos Leopardos contam histórias felizes e também carregadas de tristeza. Como foi extrair delas esses depoimentos tão fortes e pessoais?

    Acho que a vida é meio isso, né. Mesmo tirando o fato de elas serem travestis, que isso é um obstáculo na nossa sociedade. Qualquer pessoa que fizer reflexão sobre sua vida aos 70 anos de idade vai ter histórias felizes e tristes. Acho que elas lidam com adversidades e tristezas de forma própria, alegre, vitoriosa, sem se vitimizar. Através do talento, da arte, elas conseguiram um lugar muito bonito também.

    Pensa em dirigir de novo?

    Penso. Tem um projeto que estou desenvolvendo, um documentário. E penso também em ficção. Mas, como eu disse, eu curto muito ser atriz. São projetos que vão demorar tanto quanto o ‘Divinas’.

    Pensa em se dirigir?

    Não sei, não pensei nisso.

    Já pode falar sobre o tema do documentário?

    Ainda não, ainda não tenho liberação.

    O país vive uma onda de conservadorismo muito forte. O Brasil é o país que mata trans, por exemplo. De que forma o filme pode contribuir para humanizar essas pessoas e chegar a públicos que não convivem com travestis?

    Acho que o primeiro público do ‘Divinas’ é o público LGBT. Mas os depoimentos mais bonitos que vejo vêm de pessoas que não tem o mínimo contato com a comunidade LGBT. Pessoas que veem o filme e saem sensibilizadas, transformadas. É muito curioso ele (o filme) estar saindo nesse momento também. Com tanta intolerância, tanta violência contra a população trans. O ‘Divinas’ pode ter uma contribuição efetiva pra quem vê.

    Apesar de elas serem divas, e eu admirá-las como artista, ser fã delas, escolhi mostrar muito o lado humano delas. E esse lado revela histórias universais, com as quais qualquer pessoa pode se identificar. A arte tem mais poder de sensibilizar que qualquer discurso. E isso se encaixa muito na trajetória delas. Elas começaram na ditadura, eram parte de uma geração extremamente politizada. E elas, sem nenhuma ideologia, fizeram uma abertura pra vários direitos LGBTs só com comportamento, só com a arte. A vontade de ser quem você é, ser livre.

    Acha que hoje é mais difícil ser uma artista travesti?

    Acho que sim. Porque elas relatam isso. Poxa, elas eram capa da ‘Manchete’, da ‘Fatos e Fotos’. Que artista trans hoje é capa? Houve uma conquista de vários direitos LGBTs. Mas a sociedade encaretou.

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