Dia do Padre

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Dom Julio Endi Akamine

No primeiro domingo de agosto é celebrado o “Dia do Padre”. Trata-se uma oportunidade para recordar o dia da própria ordenação sacerdotal. Nesse sentido, partilho com os leitores e leitoras a memória do dia de minha ordenação. Fui ordenado em 24 de janeiro de 1988 junto com outro coirmão, Pe. Fernando.

Éramos jovens, incapazes de prever o que viria. Não obstante, tudo acreditamos: que seríamos capazes de crer e de esperar, que a Igreja nos convocava, que Deus nos chamava em Jesus Cristo e que, por isso, não nos deixaria sem sua graça. Apesar de nossa fraqueza dissemos sim! Deus nos enviou: gratidão eterna à sua graça misericordiosa!

Não sei qual seria o balanço de minha vida sacerdotal. Ou melhor, o balanço de uma vida sacerdotal só pode ser um: tudo está bem! A vida de padre não é por nada como a de uma empresa, na qual se registra a contabilidade dos ganhos e perdas. Se fosse assim teria razões de sobra para o desespero.

A contabilidade de Deus é de uma outra ordem. Nela, nós podemos lançar no livro da divina misericórdia nossa vida passada inteira. Permanece o bem que Deus se dignou fazer através de nós. E também todo fracasso, toda dureza, covardia, indiferença, rotina e miséria, que eu introduzi no sacerdócio santo da Igreja, estão igualmente lançados na divina contabilidade e, por isso, estão igualmente agraciados, redimidos, transformados e ocultos no seio da divina misericórdia. Tudo pode ser transformado de novo em graça de um sacerdócio humilde.

O dia do padre é ocasião para renovar a graça do sacramento. Evoco meu passado inteiro e coloco-me diante do futuro desconhecido e mais uma vez digo meu sim.

Tantas coisas estão incluídas neste sim! A esterilidade de meu trabalho pastoral: através do sim, ela se tornará participação na agonia do horto do Sumo Sacerdote que salvou o mundo. A monotonia chata de cada dia: em meu sim, desejo que ela se torne um pedaço da vida oculta de quem em tudo se encontrou semelhante aos homens. A solidão dura, experimentada nos momentos das difíceis decisões: dizendo sim ao sacerdócio, quero que esse vazio do coração se torne vasto espaço a ser preenchido pelo amor de Deus. Meus pecados: com um sim contrito, aprendo a grandeza do ministério da confissão, a piedade para com os pecadores e a superabundância da graça. O desânimo: que meu sim faça dele a fraqueza onde se manifesta a potência de Deus. As tarefas pouco agradáveis e, às vezes, insuportáveis do meu ministério pastoral: desejo que meu sim arrebente o círculo diabólico no qual giro em volta de mim mesmo. As trevas do futuro desconhecido: que o sim proferido, mais uma vez, faça desse peso uma prova de fé, que só se torna autêntica quando se une à provação vitoriosa de Cristo (cf. Hb 12,7-13).

A ordenação sacerdotal criou em minha vida uma realidade definitiva. Tudo que faço é inevitável e implacavelmente um sim ou um não à ação de Deus em mim. O que quer que faça, jamais conseguirei escapar a essa lei instituída pela ordenação. Desejo que no dia do padre possa dizer de coração um puro e incondicional sim ao sacerdócio, um sim para tudo o que ele traz consigo e que ele impõe.

Não sei como será a continuação de meu ministério, mas tenho certeza humilde de que Deus é fiel e misericordioso: “Deus que iniciou a boa obra, há de terminá-la”. Ele levará a obra a bom termo, pois é maior que meu coração e seus dons são sem arrependimento.

É preciso acreditar na vocação de Deus, é preciso realizá-la diariamente! A vocação não é dada de modo que não possa ser perdida. Nenhum coração a recebe sem passar pela tentação de amar os frutos da terra mais do que os do céu. Ninguém é capaz de segurar a vocação a não ser pagando o preço do sacrifício das derradeiras reservas do coração.

Não me arrependo do sacerdócio e quero tornar a aceitá-lo. Por isso, rezo: “envia-me, Senhor, deixa-me continuar em teu serviço. Tenho consciência de que o feito até agora tem sido medíocre, pois sou servo inútil a teu serviço. Conservaste-me, porém, a teu serviço e hás de me conservar até o fim por tua graça fiel. Confio, ó Deus, em tua misericórdia”!

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba.






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