Quando as terminologias importam

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Quando as terminologias importam
A deficiência não deve ser atrelada à pessoa, pois é uma responsabilidade do “meio” ser acessível para todos os cidadãos. Crédito da foto: Divulgação

Você sabe qual a maneira correta de se referir à pessoa com deficiência? Aliás, se existe uma maneira correta, quer dizer que existem outras que são erradas. Sim, erradas! Podemos até arrumar desculpas e justificativas para a utilização de termos inadequados, mas eles continuarão sendo errados!

Muitos segmentos sociais vivem um momento de “afirmação”. Ou seja: de luta pela garantia plena dos seus direitos. Cabe a nós, como sociedade, respeitar e reconhecer essa luta. Isso é inclusão.
Você precisa saber que todo segmento em fase de afirmação tem um ingrediente importante: “militância”. Nunca devemos subestimar o poder, nem a importância, que isso tem.

No movimento LGBTQIA+, por exemplo, o correto é utilizar a expressão “relacionamento homossexual” ou “relacionamento homoafetivo”? No movimento de igualdade racial, o correto é utilizar “pessoa negra” ou “preta”?

Essas questões podem parecer apenas detalhes, mas são fundamentais na defesa de seus segmentos, pois representam o “reconhecimento da sua luta”.

Em 2006, a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), determinou que o termo correto é “pessoa com deficiência”.

Isso quer dizer, que você NÃO pode usar termos como: portadores de deficiência, portadores de necessidades especiais ou deficiente.

A terminologia representa uma mudança de conceito: valoriza a pessoa, que passa a vir em primeiro plano na frase. Outro ponto importante é que a “deficiência” deixa de ser um “atributo” da pessoa e passa a ser atribuída ao “meio”. Ou seja: é uma pessoa cujo meio deve ser acessível.

Quando você utiliza o termo “deficiente”, você está atribuindo a “responsabilidade” da deficiência à pessoa. Se existissem apenas rampas, ao invés de escadas, qualquer pessoa em cadeira de rodas, por exemplo, poderia ter acesso a qualquer lugar. Ou seja: é a pessoa ou o meio que precisa mudar? Se todos nós fôssemos fluentes em Libras — língua brasileira de sinais –, a comunicação não seria um problema para a pessoa surda. E por aí vai.

Agora pense no termo “portador de deficiência”. Ele também atribui à pessoa a “responsabilidade” pelas barreiras de comunicação ou acessibilidade, usando a questão da deficiência para justificar a falta de acessibilidade no “meio”. Além do mais, você só “porta” algo que, em algum momento, pode “deixar de portar”. Isso não acontece com a questão da deficiência.

Mas o pior exemplo ainda está por vir. CUIDADO! Nunca utilize o termo “necessidades especiais” ou “pessoas especiais”. Isso pode parecer simpático, mas é totalmente preconceituoso. Quem nunca se deparou com a expressão “crianças especiais” para se referir a uma criança com deficiência?

É comum que as pessoas utilizem o termo “especial” com a finalidade de “suavizar” a questão da deficiência. Mas isso não deve ser feito.

Como já vimos, a deficiência não deve ser atrelada à pessoa, pois é uma responsabilidade do “meio” ser acessível para todos. Quanto mais suavizarmos, ou escondermos, a deficiência, menos pressionaremos o “meio” a se tornar acessível.

Não tenha medo. Utilize o termo “deficiência” na frase. Você não vai agredir nem menosprezar ninguém. Pelo contrário: demonstrará que você respeita e reconhece sua luta!

Preste atenção nestas frases: aluno com deficiência, filho com deficiência, vizinho com deficiência, amigo com deficiência etc. Estes são exemplos corretos! Utilize.

Mas e o termo “PcD”, você pode utilizar? A resposta é: depende. Ele só deve ser utilizado quando for uma abreviação, literal, de “pessoa com deficiência”.

O uso inadequado da abreviação “PcD” cria um rótulo, que deve ser evitado. A deficiência não define uma pessoa, por isso não também não deve caracterizá-la.

É comum ver frases como: “fulano tem um filho PcD”, “a escola não está adaptada para receber os alunos PcD”; “a venda de carros PcD garante isenção de impostos para quem precisa” etc.

Todos estes exemplos estão errados. Faça um exercício: monte a frase sem a abreviação, se ela fizer sentido, você estará utilizando o termo PcD da maneira correta.

Exemplo: “fulano tem um filho PcD”. Você usaria: “fulano tem um filho pessoa com deficiência”? Não. Então não deve ser usado de forma abreviada.

A frase correta é: “fulano tem um filho com deficiência”. Não podemos deixar que nossa “preguiça” seja maior que a luta de um setor inteiro.

Se possível, evite o termo PcD. Como ele é frequentemente utilizado da maneira errada, muitas pessoas com deficiência já não gostam mais dessa terminologia. Porém, se for utilizá-lo, faça da maneira correta.

Cuidado com as palavras. Elas são importantes!

*Denis Deli é jornalista e palestrante, especializado na inclusão da pessoa com deficiência.

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