Crítica: “Os Últimos Jedi” usa iconoclastia para revigorar “Star Wars”

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    Disney/Divulgação

    “Star Wars: Os Últimos Jedi” é um filme sobre lendas caídas. Dois anos após J.J. Abrams celebrar e exaurir a nostalgia em “O Despertar da Força”, Rian Johnson amansa a saudade e ousa instalar um tantinho de iconoclastia na saga mais popular e venerada do cinema.

    Se “O Despertar” foi a versão fanfic de “Uma Nova Esperança” (1977), o “Star Wars” inaugural, “Os Últimos Jedi” parece administrar melhor essa necessidade de reverenciar o passado. Por exemplo, Hoth, o planeta gelado de “O Império Contra-Ataca” (1980), encontra correspondente no planeta de sal e terra vermelha chamado Crait, último refúgio da Resistência.

     

    Por mais soturno que pareça o “Episódio VIII”, o bom timing do humor concilia muito bem o dispositivo irônico já usado pela Disney no universo Marvel com a herança deixada por George Lucas. Droides, porgs, os bichinhos fofos da vez, as clássicas exclamações de Chewbacca e um inédito tom de ridicularização do general Hux (Domhnall Gleeson) e seus almirantes da Primeira Ordem.

    Certos saudosismos à parte, “Os Últimos Jedi” é um filme que ousa revigorar a saga em novas bases filosóficas, narrativas e visuais. Johnson, habilidoso diretor de “Looper” (2012) e dos melhores episódios de “Breaking Bad”, costura uma história capaz de sequestrar as expectativas do público e empreender demoradas, mas vistosas reviravoltas.

    Ordem Jedi no divã e galáxia em desajuste
    Todo o miolo do filme se concentra num embate místico tripartido. Rey (Daisy Ridley), a Jedi novata, tenta recuperar um Luke Skywalker (Mark Hamill) em exílio para a causa rebelde, reduzida a poucas centenas de soldados e pilotos. À distância, mas próximos mentalmente, Rey e o parricida Kylo Ren (Adam Driver) jogam cabo de guerra. Um quer levar o outro para o seu lado (sombrio ou luminoso).

    Amparada por fagulhas de esperança na rebeldia, mas massacrada pelo imenso aparato militar liderado pelo Supremo Líder Snoke (Andy Serkis), essa nova galáxia é refundada em pequenas tragédias individuais. Dos sacrifícios que anônimos fazem na batalha à desesperança de Luke. O impacto emocional é imediato. No entanto, perde-se de vista o contexto político tão bem trabalhado nos prequels.

    “Os Últimos Jedi” larga por instantes a gasta batalha entre bem x mal para mergulhar nas zonas cinzentas que se colocam entre heróis e vilões. O filme até tenta didatizar isso por meio do personagem de Benicio del Toro, cínica figura do submundo recrutada por Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) para ajudar a Resistência em sua última fuga. Ele basicamente sintetiza a guerra como um organismo vivo: eterno perde-ganha.

    Johnson é mais feliz quando de fato ambiciona mostrar ao público coisas que jamais vimos em “Star Wars”: um encouraçado atravessado por uma nave à velocidade da luz, a General Leia (Carrie Fisher) finalmente explorando a Força, uma Las Vegas alternativa (Canto Bight), uma matilha de cristal, a almirante Holdo (Laura Dern) como contrapartida racional à arrogância irresponsável de Poe (Oscar Isaac), cada vez mais o sub-Han Solo.

    Lançado um ano após o frustrante “Rogue One”, o “Episódio 3,5” que ninguém pediu, “Os Últimos Jedi” passa longe da perfeição. Mas, ao contrário do conforto passadista perseguido por “O Despertar da Força”, é um filme inquieto, o tempo todo à procura de voz própria e disposto a encarar de frente as pressões dos fãs e os compromissos de franquia.

    Avaliação: Ótimo

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