Precisamos Ensinar Empatia Social às Nossas Crianças e Jovens

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    O Suicídio entre crianças e jovens é uma realidade no Brasil. Ele ocupa o quarto lugar entre as causas da morte de adolescentes brasileiros, na faixa etária que vai dos 15 aos 29 anos. Entre crianças, estimam-se 300 tentativas para cada suicídio.

    Segundo pesquisa divulgada pela Universidade Federal do Ceará, 43 crianças com idade até 9 anos se suicidaram no País, entre os anos 2000 e 2008 – o enforcamento foi a forma utilizada por 80% dos meninos, enquanto as meninas atentaram contra a própria vida por intermédio de intoxicação medicamentosa, objetos cortantes e afogamento. Entre a década de 1980 e a atual, o suicídio entre crianças e adolescentes, na faixa dos 9 aos 19 anos, aumentou 66% em nossa nação, embora haja também muitos casos de suicidas a partir dos 6 anos de idade.

    Temos de enfrentar o suicídio infantil e de adolescentes em nosso país, mas acontece que pais, professores e profissionais de saúde não conseguem perceber os sintomas prévios que podem ajudar a reduzir a quantidade de crianças e jovens suicidas. É preciso estar atento a qualquer sinal que eles demonstrem a respeito da vontade de tirar a própria vida. Além de comunicar verbalmente o intuito de se matar, podem demonstrar indícios como tristeza prolongada, mudança brusca no modo de comportar-se, agressividade e intolerância. Para muitos jovens, liquidar a própria vida é a saída para aliviar os sentimentos de angústia a insegurança.

    Lamentavelmente, nota-se que a culpa de grande parte dos casos de crianças e jovens se suicidarem provém da própria criação dada pelos pais e da forma como os educadores agem. Tal tarefa, em grande parte, depende da conscientização sobre as responsabilidades da paternidade, da maternidade e da pedagogia.

    Em geral, os pais que dão aos filhos “tudo o que eles querem” não compreendem por que as crianças ou adolescentes tentaram ou conseguiram se matar. A causa está exatamente nessa permissividade que não prepara os filhos para os fracassos naturais da vida, ao contrário, insistem na premência de eles se engajarem na disputa com o resto da sociedade e, pior, com a obrigação de vencerem a “concorrência” com seus semelhantes. Incutem nas crianças a falsa necessidade de serem bem sucedidos em tudo, de “não dar moleza” para o amigo ou colega em peleja alguma.

    Assim, o filho, sentindo-se inflado em seu ego, sai de casa despreparado para submeter-se à censura e ao pequeno insucesso. Ao defrontar-se com o primeiro bullying ou fracasso, considera-se rejeitado socialmente, em vez de encarar o fato de forma natural. Isso pode ocorrer, até mesmo, quando não consegue vaga no time de futebol da sua sala de aula, quando ganha um apelido ou quando leva “um fora” de alguma menina por quem se sentia atraído.

    Pode-se afirmar que esse é o mal do século no que tange à educação hodierna da juventude.

    Por outro lado, existe uma cobrança excessiva de muitos pais com relação ao rendimento escolar dos seus filhos. Exigem que sejam os primeiros da classe,

    abarrotam-nos de tarefas extraescolares que operam um verdadeiro massacre na liberdade e no prazer da fruição do tempo que eles têm para curtir a infância e a adolescência. Põe-nos em curso de línguas estrangeiras ainda em fase tenra de idade, não aceitam nota inferior a 8 nos exames bimestrais. Para conseguirem esse resultado, muitas vezes os pais, abominavelmente, fazem os deveres para os filhos, esquecendo-se de que, na realidade da vida, ele não vai encontrar quem faça as tarefas dele. Outras vezes, além de toda essa cobrança, ainda impõem que os filhos vão sempre à escola dominical da igreja, em suma, não lhes deixam tempo livre para o lazer a que fazem jus.

    Então, a criança e o jovem passam a desejar o destaque, aparecer como os melhores e mais bem dotados em tudo, como a “celebridade” prodigial do meio em que vivem. Não conseguindo, revoltam-se contra seus semelhantes, acham-se excluídos do ambiente que frequentam, entram em depressão e passam a querer distinguir-se de qualquer maneira, nem que seja matando o próximo, ou suicidando-se, ou realizando ambas as coisas (o recente caso do massacre da Escola Raul Brasil, em Suzano-SP, é exemplar). Ocorre um sentimento de ódio e vingança contra o “mundo inteiro” que, na visão deles, não os aceita, despreza-os. Também é possível que busquem outros jovens que se julguem na mesma situação em que eles se encontram, e formem grupos de automutilação ou de ação de vendeta ao meio em que vivem.

    A notoriedade póstuma e um possível sentimento público de comiseração é o consolo que alimentam em seu íntimo como saída para o reconhecimento, a fim de incorporarem a personalidade de um “herói” às avessas. Uma vez instaurada essa situação, nota-se que passam a cultivar um certo glamour pelo suicídio ou pela agressão à comunidade que, na cabeça deles, os rejeita. Exemplo disso pode ser detectado no fato de o advogado do jovem apreendido por ser suspeito de planejar o massacre na escola, em Suzano, alegar para as autoridades que ele apenas “fantasiou” o crime, contudo nele não teve participação. Quer dizer: cultivou em si uma fantasia, como se suicidar-se e/ou matar seus colegas, professores e parentes seja o creme de la creme do heroísmo.

    Esse desvio na forma de educar as gerações atuais é o real fabricante do desajustamento condutor de atentados praticados por uma parte da juventude em resposta a suas frustrações de convívio. Em 2017, um estudante de 14 anos atirou dentro do Colégio Goyases, em Goiânia. Dois estudantes morreram e quatro ficaram feridos. O garoto foi apreendido, e a polícia citou bullying como motivação do ataque. Em Taiúva (SP), em 2003, um ex-aluno atacou a tiros a escola. Cinco estudantes, um caseiro, a zeladora eu uma professora ficaram feridos. O atirador tinha 18 anos, invadiu o local armado com um revólver calibre 38 e um punhal, fez os disparos e suicidou-se em seguida. Segundo a polícia, o jovem era vítima de bullying escolar.

    Os perpetradores desse tipo de ataque, geralmente, têm dificuldade de inserção social e acumulam algum ressentimento agudo em relação à sociedade e comunidade em que vivem. Segundo o delegado encarregado do caso, a motivação existente por

    trás do ataque na escola de Suzano parece ser a busca por reconhecimento por parte da comunidade.

    Há, oculta em muitos casos, uma crise de masculinidade, em que jovens homens, geralmente brancos, se acham desconectados da sociedade e acabam encontrando na irascibilidade e na cultura de exaltação a armas de fogo uma forma de autoafirmação.

    Precisamos ensinar empatia social a nossas crianças e jovens, com o objetivo de prepará-los para serem cidadãos. E a principal forma de cidadania se estabelece a partir da interação e interlocução da pessoa com a comunidade. É importante ter a clareza de que a cidadania não está vinculada exclusivamente ao Estado, ela deve ganhar uma nova significação que comporte a inclusão social plena, constituindo condições de liberdade e autonomia para o exercício individual e coletivo dos entes sociais.

    O despreparo para a convivência social começa em casa. Crianças e jovens vão para a rua sem a noção de empatia para com o semelhante, tão necessária à interação com os outros e garantidora da simpatia que, essa sim, poderá fazê-los prosperar no cotidiano escolar, esportivo e de convivência na realidade do mundo que os recebe. Desse modo, deve-se condenar, especialmente na educação familiar, a valorização gratuita expressa pela multiplicação de apetites egoístas dos indivíduos que termina por atacar a cidadania.

    Caso contrário, ao se tornarem adultos, os filhos poderão, inclusive, ao inverso de atitudes suicidas, praticarem reações extremamente violentas por qualquer “dá-cá-aquela-palha” que venha a contrariá-los. Por isso, desde cedo, os pais e educadores devem inculcar, na consciência daqueles por quem são responsáveis, que é inaceitável a brutalidade de qualquer cidadão contra outro, a não ser no caso extremo de legítima defesa. Recentemente, a imprensa noticiou que, em Florianópolis, um freguês, irritado com a demora no atendimento, invadiu com o carro uma lanchonete, destruindo mesas e cadeiras, felizmente não causando vítimas. Por sua vez, o dono do estabelecimento revidou, disparando tiros que atingiram o carro, mas sem vitimar o motorista. É a prática do bateu-levou levada a efeito pelo próprio cidadão, na mesma hora – sem, sequer, suceder o devido processo legal!

    Também se deve alertar para o fato de que, hoje, a sala de aula foi trocada por uma luta vital pela sobrevivência. Infelizmente, carecemos de projetos para que equipes atuem nas escolas para evitar que uma criança se mata. O ensino médio, por exemplo, é uma fase difícil para adolescentes no momento em que definem a própria identidade. O problema passa a ter dimensão ainda mais complexa com as redes sociais, já que grande número deles utiliza a internet sem ter consciência da imagem virtual que estão formando nem dos riscos aos quais estão se expondo.

    Afinal, que tipos de seres humanos desejamos formar?

    Cruzeiro-DF, 31 de março de 2019

    SALIN SIDDARTHA

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