
Era uma quinta-feira, 24 de novembro de 1966, quando os Beatles entraram no estúdio Abbey Road para darem início às gravações daquele que seria o disco mais importante da carreira da banda e um marco da indústria fonográfica do século 20. Da capa icônica à última nota espectral de “A Day In The Life”, tudo em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” soa criativo e maduro. Lançado há 50 anos, no dia 1º de junho de 1967, o álbum ditou moda, quebrou tabu.
Para começo de conversa, levou quatro Prêmios Grammy em 1968. Entre eles, o de “Álbum do ano”. Nunca na história do rock um disco do gênero tinha ido tão longe. Também foi reconhecido, claro, pela antológica capa criada pelos artistas britânicos de vanguarda, Peter Blake e Jann Haworth. O trabalho foi tão impactante que, dali em diante, as estampas dos discos nos anos 1960 passariam a ser exploradas a partir do visual provocativo de “Sgt. Pepper’s”.
Aliás, por conta de seu elaborado projeto gráfico, “Sgt. Pepper’s” foi um dos primeiros álbuns duplos lançados até então, o que permitiu o pioneirismo de trazer na contracapa as letras de todas as canções. O experimentalismo dessa divertida fantasia musical elaborada no fragor do movimento psicodélico, naquele “verão do amor”, deu um toque de art rock ao trabalho, pavimentando, de certa forma, o caminho para o que viria a ser o rock progressivo.
Confira outras capas desenhadas por Peter Blake:
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Como lembraria anos mais tarde o baterista Ringo Starr, tudo começou com um chamado de Paul McCartney, responsável pela ideia de criar essa banda fictícia de metais militar, do período do rei Eduardo VII (1901-1910), durante um voo de férias do Quênia para casa. “Era sempre o Paul que ligava e nos chamava para voltar ao estúdio. Ele era um viciado em trabalho”, conta o dono das baquetas da banda mais famosa do planeta.
Assim, a ousadia corria solta no estúdio, a reboque de influências que iam desde uma propaganda de Sucrilhos, o universo mágico de Walt Disney, drogas alucinógenas e o clássico disco dos Beach Boys, “Pet Sounds”, de 1966. O céu era o limite e, à medida que o disco evoluia, o produtor George Martin ficava preocupado, chegando a duvidar do resultado final do trabalho.
“Será que o público está preparado?”, pensou na época aquele que era considerado o quinto beatle. “Não estávamos indo longe demais? Sendo pretensiosos?”, maquinava meio desconfiado e paternal.
Sucessos de venda e críticas, essa sinfonia hippie do “Fab Four” permaneceria 27 semanas no topo das paradas britânicas, mas muito mais tempo nos corações e mentes de milhares de fãs em todo o mundo, passados cinco décadas. Para celebrar a data, foram lançados, na última sexta-feira (26/5), vários “brindes” relacionados ao álbum que, com certeza, irão fazer a festa entre os fanáticos pelo “Clube dos Corações Solitários”.
Pegando carona nessa euforia psicodélica, o Metrópoles fez uma lista de algumas curiosidades em torno de um dos discos mais festejados do rock.
Duas versões da mesma saudade…
Com forte ressonância proustiana, “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever” foram os primeiros registros da banda do que viria a ser a essência do álbum. Não entraram no disco porque o empresário Brian Epstein estava preocupado dos “rapazes não terem ainda um grande single de sucesso” para aquele verão do amor. Lançadas como single, seria o primeiro compacto dos Beatles a não alcançar o primeiro lugar no Reino Unido. “Foi um dos grandes erros que cometi”, admitira o produtor George Martin.
À sombra de Pet Sounds
Brian Wilson dos Beach Boys nunca negou que os discos “Rubber Soul” e “Revolver” dos Beatles foram grande influência para a banda californiana gravar o mítico “Pet Sounds”. Assim como Paul McCartney também sempre citou o disco como uma das grandes influências para “Sgt. Pepper’s”.
Mas quem era, afinal, esse tal de Sgt. Pimenta?
Há controversas sobre a criação do personagem. No seu livro sobre os bastidores do álbum, o produtor George Martin conta que o roadie dos Beatles, Mal Evans, leva bons créditos por ter pensado no nome. “Ele saiu com ‘Salt and Pepper’, que se transformou num dos alter egos de Paul”, narra no livro. Na biografia de Mcartney, escrita por Barry Miles, o baixista reivindica o crédito no episódio do ‘sal e pimenta’. Há quem diga que o nome é uma brincadeira com um refrigerante americano popular chamado Dr. Pepper.
Sem Hitler, sem Jesus e sem Gandhi
Uma das preocupações dos produtores era com o direto de imagem das personalidades escolhidas para estampar a capa. A atriz desbocada Mae West rilhou os dentes, mas voltou atrás após uma carta dos Beatles. Quando soube do projeto, o presidente da EMI, Sir Joseph Lockwood, surtou: “Alguns desses rostos terão que sair: não quero Gandhi, para começar, já existe muito problema com a Índia sem essa agitação”. E John Lennon, que queria que entrassem Adolf Hitler e Jesus, por pura farra, declinou, imperando o bom senso, ainda mais depois da confusão criada por ele ao dizer que a banda era mais popular que Cristo.
Até Jimi Hendrix se rendeu a “Sgt. Pepper”
Cantada com voz rascante por Paul, a faixa-título ganharia versão ainda mais poderosa via Jimi Hendrix, três dias após o lançamento do álbum. A performance eloquente abriu o show de retorno do guitarrista à Inglaterra, naquele junho de 1967, e contou na plateia com ninguém menos do que George Harrisson e Paul McCartney.
A vida é um comercial de Sucrilhos
“Good Morning, Good Morning” era um deboche bem ao estilo Lennon sobre a medíocre vida doméstica que levava depois que os Beatles encerraram a fase das turnês. Na época, sua rotina se resumia a levar o filho Julian à escola, ficar rascunhando letras de música na cama e ver televisão. Numa dessas, foi fisgado por um comercial de Sucrilhos, que logo ele transformaria em música símbolo dessa fase suburbana de insatisfação.
Sgt. Pepper’s em números
Acredita-se que o mais revolucionário álbum pop de todos os tempos tenha vendido até hoje 32 milhões de cópias. “Sgt. Pepper’s” ficou no topo das paradas britânicas 27 semanas. Segundo dados liberados pelo Spotify, as músicas mais ouvidas do disco são, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “A Day In The Life”, “With A Little Help From My Friends”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “When I’m Sixty Four”. O Brasil é o quarto país que mais ouve o disco no serviço de streaming.
O legado de “Sgt. Pepper’s…”
O legado deixado por este que talvez seja o mais importante disco de rock de todos os tempos é imensurável. Primeiro porque abriu um horizonte de possibilidades sonoras infinitas, parecendo fazer com que as canções tivessem cores, cheiro e até sabor. De uma maneira marcante, mas não inédita, extravasou a fronteira do entretenimento, dando uma importância social à música até então vista em trabalhos do bardo Bob Dylan. No Brasil, uma das grandes contribuições dada pela obra pode ser sentida pelo movimento tropicalista e na irreverência criativa dos Mutantes.























