Ilustradoras discutem representações machistas no mangá

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    O mangá, tradicional formato japonês de histórias em quadrinhos, habitou a infância de muitos brasileiros – e é fonte de leitura para vários geeks até hoje. A arte secular tem diversos segmentos que atendem a todo tipo de público: o kodomo, por exemplo, pode ser descrito – grosseiramente – como destinado a crianças, enquanto o josei é feito para mulheres jovens e adultas. As classificações também se estendem a estilos: harém é o mangá de um personagem masculino cercado de mulheres, magical girl trata-se de um estilo mais fantástico, como o famoso Sakura Card Captor.

    Um dos estilos mais famosos é o hentai, com seus desenhos pornográficos e histórias majoritariamente sobre sexo heterossexual. As representações femininas nesse estilo – e em muitos outros – são desconcertantes. Elas são desenhadas com seios imensos e muitas vezes em posições ginecológicas, retratadas como frágeis e passivas ou histericamente agressivas. Geralmente, ocupam a posição de interesse romântico do protagonista, que na maioria das vezes está indisponível para o relacionamento amoroso. Em tempos de #MeToo, representações assim são cada vez mais questionáveis.

    “Tem gêneros que objetificam a mulher sem quaisquer escrúpulos, como o hentai e o lolicon. Existem clichês de personagens, como mulheres dentro do estereótipo da fofinha e submissa, ou a agressiva apaixonada pelo protagonista. Isso é muito estigmatizado na narrativa japonesa. É tão forte a ponto do mercado editorial fazer essa divisão entre mangás para meninos e meninas”, pontua a ilustradora e quadrinista mineira Renata Rinaldi, radicada em Brasília há 8 anos.

    Leitora de mangás desde criança, Renata lembra de um aspecto dos quadrinhos que sempre a incomodou: os tombos das personagens nas histórias. “Se elas caem no chão, é sempre em alguma posição ginecológica, com os seios no rosto do personagem masculino, a roupa abre… Existe uma sexualização muito forte”, analisa a artista.

    Para a ilustradora e quadrinista Ju Loyola, vencedora de cinco prêmios internacionais de mangá, um grande problema no gênero é a predominância masculina de homens como ilustradores. “Infelizmente ainda temos poucas heroínas e artistas femininas. Acredito que o mangá precisa se atualizar, e muito. Todas minhas protagonistas são femininas, eu adoro esse destaque. Sempre dou a elas poderes, são fortes, sedutoras, românticas, misteriosas…”, descreve.

    Personagens fortes
    Nem toda representação é ruim: mangás inspiradores ajudaram as artistas a criarem suas próprias personagens. “Animes como Macross, em que a música de uma garota aliada ao poder de luta de um soldado foram suficientes para combater o mal, me fizeram ver que mulheres podem ser importantes em uma história”, comenta a ilustradora Kari Esteves.

    Para Kari, bons exemplos podem ser encontrados nos shoujos, mangás destinados a garotas adolescentes. “Gosto de Nana, porque as personagens correm atrás de seus sonhos e mesmo quando as coisas não saem como queriam, elas dão a volta por cima”, opina. Segundo Renata, um bom ponto de partida é procurar mangás da Clamp – estúdio criado por quatro japonesas. De lá, saíram clássicos como a própria Sakura e também as Guerreiras Mágicas de Rayearth.

    Veja mangás recomendados pelas artistas entrevistadas:

    Problema cultural?
    Muito se discute se o machismo nos mangás não seria um problema cultural do Japão. Caberia a nós, brasileiros, criticar e cobrar mudanças da indústria japonesa?

    “Acho que é muito importante pensar no contexto cultural japonês, mas isso não quer dizer que mangás com hipersexualização feminina, violência contra mulher ou pedofilia sejam normais, apenas por pertencerem a outra cultura”, opina Rebeca Puig, roteirista e editora do site Nebulla. A preocupação com a representação é quase óbvia: se ali estão desenhadas alegorias de mulheres japonesas, a narrativa pode servir na sustentação de comportamentos machistas.

    Acho que o mundo todo vem passando por um momento de discussão sobre como mulheres devem ser representadas na mídia e tratadas dentro do mercado de trabalho. Como em qualquer área, o mercado de ilustração japonês carrega o machismo da sua sociedade. Sempre existiram mulheres ali, e elas são tão ou melhor sucedidas do que muitos dos homens considerados gênios

    Rebeca Puig, roteirista e editora do site Nebulla

    Os tempos estão mudando: segundo Kari Esteves, as coisas melhoraram no Japão. “Garotas têm papéis bem mais influentes nos mangás, embora a figura da mulher indefesa ou objetificada ainda exista. Mas em shoujo especialmente, elas ganham um destaque sensacional”, comenta.

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