Até hoje, todos os procuradores-gerais da República são integrantes do Ministério Público Federal. O ocupante do cargo é o chefe da instituição. Os chefes do Ministério Público Militar e do Ministério Público do Trabalho são necessariamente dessas categorias, que atuam apenas perante a Justiça Militar e Justiça do Trabalho. A carreira que atua na Justiça Federal é a de procurador da República.
Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro, Mendonça disse que não concorda com o entendimento de que só integrantes do Ministério Público Federal (MPF) poderiam ocupar a vaga. “Respeito a opinião, mas não vejo dessa forma”, disse.
O presidente da Associação Nacional de Procuradores da República, José Roberto Robalinho, disse ao Estado que a interpretação do advogado-geral “não se sustenta em pé”.
“Respeito muito o advogado-geral, mas a opinião, neste caso, é juridicamente absurda. A Constituição Federal deixa claro que o chefe da PGR deve ser membro da carreira do MPF. Nunca houve dúvida disso e sequer há uma discussão jurídica. Jamais será aceita pela carreira do Ministério Público Federal e por ninguém a liderança de membro de outra carreira. A não ser que alterem a Constituição”, disse Robalinho.
Mendonça também disse que procuradores regionais da República, que atuam em segunda instância, podem disputar o cargo. No órgão, há quem defenda que somente subprocuradores-gerais, o topo da carreira, podem concorrer. “Legalmente é possível que até regionais possam concorrer”, afirmou Mendonça.
Nesse ponto, o presidente da ANPR concordou. Segundo ele, a Constituição e a lei que trata do tema não restringem o cargo a subprocuradores-gerais.
A reportagem questionou a Procuradoria-Geral da República sobre a frase do advogado-geral. A assessoria de imprensa disse ainda não saber se a procuradora-geral, Raquel Dodge, irá se manifestar.
Sucessão
O procurador-geral de Justiça Militar, Jaime de Cássio Miranda, levou a Bolsonaro uma proposta de ‘cisão’ do cargo de procurador-geral da República em duas cadeiras. Crítico à lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), Miranda propôs a criação de um cargo para chefiar o Ministério Público da União, que cuidaria de questões orçamentárias e administrativas e seria escolhido em rodízio, por membros dos diferentes ramos do MP.
Nesta semana, foi definido o cronograma de trabalho da formação da lista tríplice para o cargo de procurador-geral. Os nomes são enviados ao Presidente da República, mas ele não tem a obrigação de indicar alguém da lista. Na reunião para definir o calendário realizada na ANPR, estavam presentes os subprocuradores-gerais da República Mario Luiz Bonsaglia e Nicolao Dino, e os procuradores regionais da República Lauro Pinto Cardoso Neto (PRR1), Blal Yassine Dalloul (PRR2) e Vladimir Aras (PRR1).
Indicada pelo ex-presidente Michel Temer, a chefe atual da PGR, Raquel Dodge, termina seu mandato de dois anos em setembro. Em março, o tema da escolha do chefe da PGR foi assunto do Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF). Ao negar uma proposta que pretendia mudar a forma de indicação para os nomes da lista tríplice da PGR, Raquel Dodge citou mais de uma vez trecho da Constituição que define que o Ministério Público da União tem por chefe o Procurador-Geral da República.
O vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia, também defendeu que é uma “exigência legal” que a escolha do PGR seja feita dentre os Subprocuradores-Gerais da República integrantes da carreira.