A OFENSIVA NEGACIONISTA DO NEOFASCISMO NO BRASIL

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A OFENSIVA NEGACIONISTA DO NEOFASCISMO NO BRASIL

Salin Siddartha

Ao criticar e questionar a República, em pleno 15 de Novembro, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, defendeu a Monarquia e, contestando as razões de se comemorar os 130 anos da Proclamação da República, em seu twiter, pôs em dúvida a legitimidade da república no Brasil, chamando-a de fruto de um golpismo. Reparem que se trata, aqui, do Ministro da Educação, a pessoa que deveria ser responsável por levar a bom termo o processo de ensino no País. E o que ele faz?: deseduca, ensina o erro, ao efetuar a negação da validade de um acontecimento histórico que embasa as instituições brasileiras, inclusive as nossas Forças Armadas. Pode-se considerar essa intervenção desastrada e, literalmente, nada republicana, como uma declaração negacionista digna do mais puro olavismo presente na pseudodoutrina que tem vez no governo atual.

Promovido por integrantes do Governo Jair Bolsonaro, há um nítido revisionismo histórico negacionista no Brasil que tem por finalidade negar e manipular fatos, visando desacreditar a realidade. Aliás, o negacionismo é comum aos neofascistas, a começar pelo descrédito ao Holocausto, pela crença na supremacia branca, pelo desejo de separatismo, ódio ao diferente e às minorias, pela oposição à mistura étnica e inter-racial.

Longe de ser uma exclusividade brasileira, o negacionismo é uma posição anticientífica pertencente ao movimento mundial chamado anti-intelectualismo. Os teóricos negacionistas, autodenominados “revisionistas”, propõem uma visão invertida da história com relação à realidade, a partir da asserção do excelente livro “1984” (George Orwell) de que “quem controla o passado também controla o futuro”.

Ora, negar a violência do passado e do presente é uma arma política usada pelos neonazistas a qual ameaça o conhecimento social e a democracia. A supressão da verdade e a negação da História, por exemplo, é um crime contra famílias que perderam seus filhos nas cruéis masmorras. O negacionismo é um braço da extrema direita que vem, nos últimos anos, influenciando a opinião pública despreparada – desde as pretensões nipônicas de negar os crimes praticados em sua invasão na Coreia e na Manchúria até a persistência dos ultradireitistas estadunidenses de rejeitar o caráter racista e escravocrata da Confederação Sulista, que tanto defendem, passando pelas diatribes palpitantes do governo da Polônia ao opor-se às evidências de colaboração dos poloneses com o assassinato de judeus na Segunda Guerra Mundial, bem como pelas reabilitações pseudocientíficas do colonialismo europeu.

Alguns negacionistas, como o pastor norte-americano Gerald Smith, argumentam que 6 milhões de judeus não foram mortos no Holocausto, mas sim que emigraram para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, e veem Auschwitz como uma simples prisão (duvidando, até mesmo, da autenticidade do “Diário de Anne Frank”). A negação do Holocausto infesta a ultradireita; no Brasil, esse ponto de vista é promovido pelo ideólogo Olavo de Carvalho, o chanceler Ernesto Araújo e o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro. Propostas de reconstrução historiográfica da ultradireita postam no

ciberespaço matérias revisionistas negacionistas. Tal manipulação da História passou a ser um projeto de edição de livros e periódicos, com largo emprego da Internet.

O negacionismo está presente tanto nas ciências humanas, quanto nas ciências exatas e biológicas. Ele fabrica falsas controvérsias sobre a meteorologia e as teorias da relatividade. Na Geologia, criaram-se teorias que discordam do formato do nosso planeta, e declaram que a Terra é plana (hipótese seguida pelo mesmo Olavo de Carvalho – um dos ideólogos do bolsonarismo). Um discurso bastante utilizado em diversos países é o que agasalha o ponto de vista de que o combate ao aquecimento global diz respeito a uma imposição internacional – um exemplo disso é o de Donald Trump, ao retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. No Brasil, o negacionismo climático é uma tese de alguns ruralistas, que desconhecem as comprovações científicas e classificam como ideologistas os cientistas que passaram décadas estudando profundamente as mudanças climáticas.

A Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, que prestou homenagem aos indígenas do Xingu, com o enredo sobre Belo “Monstro” (Belo Monte), que secou a Volta Grande e deixou terras nativas sem peixe, foi ameaçada, no ano passado, pelo então Senador (e ruralista) Ronaldo Caiado, que afirmou sua intenção de instalar uma CPI para investigar aquela agremiação carnavalesca. Já o Ministro das Relações Exteriores do governo de Bolsonaro, disse, em sessão de oitiva na Câmara dos Deputados, que não há aquecimento global, e sim que os termômetros estão propositadamente apresentando defeito para atender a um conluio internacional levado a cabo pelos marxistas, o que levou o jornal inglês “The Guardian” a enfatizar em manchete que “Novo Ministro das Relações Exteriores do Brasil Acredita que Mudança Climática É uma Trama Marxista”.

Os bolsonaristas mais aguerridos pertencem a uma extrema direita identitária, negacionista em relação à Ditadura e que enuncia uma leitura da História do Brasil como um pedaço constituinte de sua maneira de ver os fatos, penetrando-os com conspiracionismo anticomunista, fundamentalismo religioso, moralismo, punitivismo e defesa do armamentismo. Esse é o casulo do Presidente.

Acontecem pronunciamentos sem sentido, como o que o Presidente Jair Bolsonaro proferiu durante a campanha eleitoral, falando sobre o fato de “os filhos de Portugal nunca terem escravizado ninguém” (foram os próprios negros da África que o fizeram, segundo o atual Presidente da República). Também instou que não houve golpe de Estado em 1964 e que o nazismo foi um movimento de esquerda. Esses são exemplares de minimizações repetidas que terminam por corporificar o negacionismo em nosso país.

Bolsonaro orientou publicamente o Ministério da Defesa para que comemorasse o Golpe Militar de 31 de março de 1964. Então, em 31 de março de 2019, o Governo Federal divulgou um vídeo especificamente filmado a fim de contestar que tivesse ocorrido um golpe militar, assegurando que as Forças Armadas só exercitaram seu papel constitucional. Duas particularidades do negacionismo histórico a respeito da Ditadura Militar no Brasil são as tentativas de diminuir seu período de vigência e justificar sua implantação. Encurtam-no, asseverando que, de 1964 a 1968, não se fez notar um regime ditatorial, o qual se iniciou somente em 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Asseguram-no dizendo que o Presidente Artur da Costa

e Silva o fez publicar devido à violência dos opositores do regime que, segundo esses manipuladores da história, era ainda pacífico, desde 1964. Tal justificativa soa como se aquele ditador tivesse apenas reagido de forma legítima contra um mal maior.

O revisionismo negacionista, sempre que pode, também desqualifica a resistência do movimento estudantil contra a Ditadura Militar e contra a quebra de direitos adquiridos pelo povo brasileiro. Essa desqualificação insere-se no quadro da tentativa de desmerecimento que ele faz de todos os que lutaram contra o Estado de exceção. Lamentavelmente, o negacionismo está atuante nas escolas. Até professores do ensino básico escutam seus alunos redarguirem que a Ditadura Militar nunca existiu, não passando da imaginação de “esquerdopatas”.

O sentido político do negacionismo é que a importância política dos crimes fascistas impõe dificuldades à expansão organizativa do neonazismo. Assim, negar a existência desses crimes é crucial para a legitimação da ultradireita.

Uma maneira de enfrentar essa manipulação da ultradireita é fazer a universidade criar canais de diálogo com a sociedade; porém, lamentavelmente, não se pode contar com a comunicação encetada pelos órgãos do governo. Por esse motivo, é o próprio movimento social organizado nas instituições de ensino que deve conduzir tal tarefa. Nesse aspecto, deve-se realizar um debate com os estudantes de História, pós-graduandos e professores sobre como tratar desse problema, pensar a História Pública, procurar saber como estabelecer conexões, desde a produção de audiovisuais até a publicação de artigo em periódicos. Esse tema precisaria passar a ser parte formativa para os próprios professores daqui por diante. A questão é que a produção historiográfica dos últimos 40 anos se voltou muito para o público interno das faculdades, configurando-se como uma discussão somente entre os pares. Agora urge que os historiadores, professores, técnicos, cientistas e acadêmicos passem a preencher esse espaço. Infelizmente, a intelectualidade e a academia não estão preparadas para produzir um bom programa no YouTube ou um texto rápido e eficaz – elas são adestradas para redigir textos longos, complicados e maçantes.

E esse é o desafio que se coloca hoje.

Cruzeiro-DF, 17 de novembro de 2019

SALIN SIDDARTHA

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