A INFLUÊNCIA DAS PESQUISAS DE OPINIÃO

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A INFLUÊNCIA DAS PESQUISAS DE OPINIÃO

Salin Siddartha

São praticamente unânimes os comentários de que as recentes pesquisas de opinião falharam ao prever, por longa margem de diferença, a vitória do candidato da direita nas eleições presidenciais do Uruguai ante o candidato da situação. Embora as pesquisas tenham acertado quanto à vitória de Lacalle Pou, equivocaram-se quando previram uma folgadíssima vantagem dele sobre o adversário Daniel Martínez.

Têm sido bastante comuns tais erros dos institutos de opinião, principalmente quando se trata de eleições municipais e estaduais no Brasil, conquanto as pesquisas deixem um rastro de influência notável em relação à mudança na preferência do cidadão no que tange à escolha do candidato em quem ele vai votar. É inegável a significativa impressão com que elas marcam a decisão em prol do voto útil na consciência do eleitorado.

Resultam, então, questionamentos que devem ser feitos a partir mesmo da geração dos próprios termos em que as pesquisas são elaboradas “in door” e enunciadas ao público. Perguntas como: existe um fator que influencie as pesquisas sobre a opinião pública política? Tais pesquisas ajudam a formar a opinião pública ou simplesmente a refletem? Qual é o impacto das pesquisas no quadro político?

As pesquisas são um fator na formação das tendências políticas do eleitorado, e os entusiastas das pesquisas de opinião partilham de, pelo menos, duas suposições: uma delas é a de que, em princípio, o povo compreende exatamente o motivo que o leva a apoiar um candidato; outra é que o povo é franco ao exprimir-se sobre o assunto – mas, de fato, qual é a razão que leva o entrevistado a preferir determinado candidato? Essas perguntas atingem as raízes da teoria da democracia.

A pesquisa de opinião é uma ferramenta indispensável para uma eficiente campanha eleitoral, no sentido de mostrar um quadro diferente daquilo que a percepção individual consegue captar.

Por outro lado, é impossível pensar a esfera política fora das relações de influência da mídia. Há um complexo entrelaçamento recíproco entre os meio de comunicação e o campo político; a questão é saber como se dão as diferentes formas dessa relação. O sistema político

acompanha a formação da opinião pública e, muitas vezes, atua de acordo com ela, conquanto nem sempre a opinião pública influencie e determine ações.

As pesquisas eleitorais exercem influência nos eleitores que, por sua vez, acabam induzidos a votar no candidato que supostamente lidera a disputa eleitoral, com isso, servindo-se a pesquisa de instrumento de manipulação política a influenciar ou tendenciar a “liberdade” da decisão do eleitor de votar por sua livre escolha e consciência. Nesse caso, não se pode deixar de fazer menção, aqui, à teoria do “Psicologismo” de Gustave Le Bom, quando recorre à noção de contágio para explicar a conduta das massas. Segundo ele, indivíduos, em situações coletivas, deixam-se levar por mecanismo de contágio em uma multidão. Le Bom argumentava que a grande aglomeração de pessoas motiva os indivíduos a agir de um modo distante de um jeito individual de ser. Então, nesse caso, as multidões deixam de ser o somatório de suas partes individuais para ganhar o contorno de um valor coletivo próprio. Nesse contexto, os partidos perdem espaço e são vistos pela maioria dos cidadãos apenas como orientadores do voto, e não se pode descartar que as opiniões das pessoas de renda mais alta terão mais influência do que as pessoas de baixa renda.

É sensível que os meios de comunicação de massas utilizam-se das pesquisas eleitorais para oferecer a seus públicos as estimativas mais apuradas do andamento dos pleitos, consolidando e ampliando, dessa forma, a audiência de suas respectivas coberturas jornalísticas das eleições, ao mesmo passo que consolidam e ampliam as posições dos candidatos.

O principal acesso dos brasileiros ao sistema da mídia se dá pela via dos meios eletrônicos da rede social, do rádio e da TV – pelo menos 2/3 da população obtêm suas informações básicas sobre o País e o mundo por intermédio desses veículos; porém os assuntos políticos não constituem o interesse prioritário dos receptores da informação. Além das redes sociais, são justamente os programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral e os debates eleitorais travados nos pleitos majoritários mais competitivos (como as disputas presidenciais) que chamam a atenção de milhares de eleitores.

Não obstante, as pesquisas de opinião também são utilizadas para submeter as chances de aprofundamento democrático, e até para inviabilizar a própria continuidade da democracia. Diversas ocorrências já caracterizaram o uso das pesquisas como fator de manipulação de eleitores com o objetivo de subversão do Estado Democrático de Direito. Um caso peruano, na década de 1990, é classicamente exemplar. Vejamo-lo.

Em abril de 1992, o Presidente do Peru, Alberto Fujimori, lançou o que chamou de “Autogolpe”, fechando todas as instituições republicanas daquela nação, com exceção da pertencentes ao Poder Executivo, sob o argumento de que era a atitude que a maioria da periferia esperava dele, como revelavam as pesquisas de opinião. Escorando-se em legítimo descontentamento do povo a respeito do inadequado funcionamento democrático do Peru, as pessoas respaldaram Fujimori no intuito de atentar contra a Constituição. Com o incontestável apoio da população para agir, aquele Presidente violou a Carta Magna peruana sob a alegação de que era a única forma de praticar, de fato, uma atitude popular, haja vista fazê-lo sob expressivo apoio dos peruanos. Foi dessa forma que Fujimori legitimou o golpe de Estado, desorganizou a estrutura partidária do país, enfraqueceu o Poder Legislativo e concentrou enorme poder ditatorial em suas mãos.

O modelo peruano demonstra-nos o arsenal existente no mal uso das pesquisas para encetar atitudes antidemocráticas. Assim, não há como negar que elas podem ser empregadas como ferramentas cínicas para derrubar a democracia.

Tudo em nome do “apoio popular”.

Cruzeiro-DF, 26 de novembro de 2019

SALIN SIDDARTHA

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