A bela surpresa da construção civil

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No meio de um período complicado por conta da pandemia — e que, infelizmente, parece atravessar um de seus piores momentos, com explosão de número de casos, aumento da ocupação de UTIs e risco de colapso de sistemas de saúde –, existe um segmento da economia que vem apresentando desempenho surpreendente. Trata-se da construção civil.

Enquanto diversos setores observam dificuldades, quedas e até falências, o mercado imobiliário não para de crescer no País.

Praticamente, para qualquer lado em que a gente olhe, existe um imóvel em construção, na maioria edifícios. O aquecimento imobiliário tem vários motivos: com a taxa de juros baixa, o financiamento bateu recorde e fez com que essa atividade não parasse.

A taxa básica de juros está em mínimas históricas, de 2% ao ano, e de crédito para imóvel girando entre 6% e 7% ao ano. Há, também, aspectos comportamentais. A resiliência já mostrada em outras crises, junto à atual conjuntura econômica e social do país, tem sido determinante para o resultado.

Por muitos anos impulsionado por programas habitacionais, como o antigo Minha Casa, Minha Vida (atual Casa Verde e Amarela), o segmento viu, na demanda por imóveis de média e alta renda, o ponto de desenvolvimento de 2020.

A fatia para baixa renda, entra crise e sai crise, mostra-se forte pelo déficit habitacional no país. Mas, a demanda de médio e alto padrão está diretamente ligada à queda na taxa de juros, que permite o acesso a uma casa melhor.

Ainda mais levando-se em conta a questão do home office. Como as pessoas passaram a ficar mais em casa, também passaram a buscar um imóvel mais adequado.

Do ponto de vista prático, outra curiosidade. Considerado serviço essencial, a construção civil não parou na pandemia. Seguindo protocolos de saúde, o setor conseguiu evitar ondas de contágio.

Conforme levantamento feito pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), em 888 canteiros de obra no país, envolvendo 69 mil trabalhadores, foram registradas 11 mortes por Covid-19.

O sucesso no protocolo de prevenção estaria diretamente ligado à natureza da atividade, que antes mesmo da pandemia já lidava com a segurança do trabalho.

A alta temperatura desse mercado pode ser medida por vários termômetros. Em 2020, os financiamentos de imóveis chegaram a R$ 123 bilhões, um crescimento de 58% em relação a 2019, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Poupança e Crédito (Abecip).

Outro indicativo vem da Caixa Econômica Federal, que quebrou recordes em 2020. Foram concedidos R$ 509,8 bilhões para pessoas adquirirem imóveis, superando os R$ 465,1 bilhões financiados em 2019.

As contratações de crédito imobiliário com recursos da poupança (SBPE) evoluíram de R$ 26,6 bilhões para R$ 53,7 bilhões em 2020, repetindo o crescimento superior a 100% que já tinha sido visto entre 2018, quando foram concedidos R$ 13,5 bilhões, e 2019.

Dessa forma, a Caixa continua sendo o maior financiador da casa própria no país, embora sua participação tenha diminuído de 69,2%, patamar de 2019, para 68,8% no ano passado. Ou seja, 2020 foi um ano histórico para a instituição. Pela primeira vez, ela ultrapassou a marca de meio trilhão de reais de crédito imobiliário, com cerca de 5,6 milhões de famílias atendidas.

Pouco mais de 52,6 mil unidades habitacionais de interesse social foram entregues a famílias com renda mensal de até R$ 1.800, beneficiando a cerca de 210,3 mil pessoas.

Além disso, o banco estima que a construção de 2,3 mil novos empreendimentos, o que totaliza 286,3 mil novas unidades habitacionais, possibilitou a geração de cerca de 1,9 milhão de empregos diretos e indiretos.

Devido ao impacto financeiro da pandemia no orçamento das famílias, a Caixa ofereceu a possibilidade desses clientes negociarem uma pausa do pagamento das parcelas. Cerca de 2,53 milhões de contratantes foram beneficiados pela medida, que ajudou a reduzir o índice de inadimplência da carteira habitacional para pessoa física para 1,28%.

O reflexo geral pôde ser visto nos empregos, que compreensivelmente sofreram grande abalo em 2020. Em termos de vagas de CLT, o setor que mais contribuiu foi justamente o da construção civil, com 112.174 postos a mais que em 2019 entre admissões e demissões.

Trata-se da indústria que mais emprega, segundo a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). O saldo da construção civil em 2020 é melhor do que o registrado em 2019, quando o setor criou 71 mil vagas.

O aquecimento do setor é importante para o mercado de trabalho, pois há uma grande cadeia produtiva envolvida na construção civil, desde o canteiro de obras até a fabricação de insumos. Hoje, segundo a Abrainc, há 4 milhões de pessoas empregadas diretamente no setor, com potencial de atingir 7,5 milhões.

E apesar da pandemia, o futuro é promissor. A construção civil deverá ter, em 2021, o maior crescimento para o setor em oito anos, em torno de 30%.

Conforme projeções da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do segmento deve avançar 4%, após recuar 2,8% em 2020. Caso a estimativa se confirme, será a maior expansão para a construção civil desde 2013, quando cresceu 4,5%.

O setor deverá ter desempenho melhor que o restante da economia. De acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o PIB brasileiro de 2021 crescerá 3,2%.

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