O que está por trás da queda atual do mercado de criptomoedas

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A recente queda no ritmo de crescimento do Bitcoin é um sintoma que reflete o sentimento das grandes baleias investidoras com relação ao mercado financeiro global. Sempre cautelosas com relação à possibilidade de grande risco nos seus investimentos, elas conseguem obter informações privilegiadas sobre o que se esconde por trás das aparências de como se desenrola o cenário que se lhes apresenta como perspectiva futura de segurança financeira. Se as informações que seus analistas conseguem colher são analisadas como incertezas no destino dos capitais aplicados, elas se comportam de maneira incerta na forma como atuam no processo de compra e venda de títulos. Preocupam-se com a possibilidade de uma formação de bolha que possa vir a explodir, gerando uma crise. Nesse aspecto, especulação é o que não falta.

Os grandes investidores costumam fazer uso de informações privilegiadas (Insider Trading) para comprar ou vender títulos. São experientes tubarões municiados de informações. Isso é algo que acontece diariamente, e movimentos atípicos são identificados antes da divulgação ou ocorrência de fatos relevantes. Provavelmente é isso o que está por trás da queda atual do mercado de criptomoedas.

Os grandes investidores lucram agindo assim. Eles realizam negociações de grande volume antes de grandes movimentos de mercado ou de anúncios públicos sobre os quais já têm conhecimento prévio de que vão acontecer. Mas o contrário também ocorre, quando sabem de antemão que o mercado está para sofrer uma grande crise; neste caso, eles param de investir ou, até mesmo, se retiram do mercado a fim de impedir a perda de seu capital. Então, é comum uma corrida por ativos seguros como ouro e prata, que, no momento, estão sendo negociados em níveis recordes.

Ao analisar o panorama do mercado de criptomoedas, notamos um comportamento atípico por parte da maneira como está se dando a atividade de trading na determinação da volatilidade da criptomoeda.

A volatilidade é uma característica do Bitcoin. O principal motivo de sua volatilidade é a variação da liquidez, geradora de especulação no mercado pela forma como a variação do capital investido se realiza. Quanto maior for a volatilidade, maior é a variação dos preços, oque indica riscos mais significativos para quem investeem troca da possibilidade de alta taxa de rendimento. A alta volatilidade traz mais oportunidades, porém aumenta o risco. Quando essa criptomoeda sobe, os traders a vendem, de forma tal que há uma queda significativa para, depois, novamente subir e, assim, o movimento de oferta e procura se torna cíclico, mas sempre com grandes elevações no decorrer do tempo.

Entretanto, o que se vê, no momento, é uma pequena oscilação no processo de compra e venda. Por exemplo, compra-se na faixa de US$83 mil dólares e vende-se na faixa de US$89 mil dólares, retornando a criptomoeda, novamente aos US$83 mil dólares para, a seguir, ser novamente comprada até atingir os US$89 mil dólares, e assim, ciclicamente, o que confere uma estreita margem de lucro com relação ao que normalmente costuma ocorrer nas atividades de trading com a criptomoeda. De fato, a volatilidade tem sido muito pequena devido à perda de liquidez, gerando menos oportunidade de lucro.

Por que será que os grandes investidores não estão deixando uma acumulação que possibilitevalorização maior do que essa margem? Por que, atualmente, estão travando o crescimento do bitcoin, impedindo que recupere o patamar de US$125 mil dólares a que tinha chegado no decorrer do ano de 2025?É que os detentores do grande capital especulativo vislumbram grande risco de quebra no mercado financeiro internacional a comprometer os ativos de risco e, talvez, os ativos fixos também.

É sabido que uma queda nas taxas de juros é vista como algo positivo para as criptomoedas, pois as reduções nas taxas aumentam a liquidez nos mercados, o que normalmente incentiva os investidores a assumirem mais riscos. Sempre que há queda na taxa de juros, o mercado de criptomoedas aquece com aumento de liquidez e elevação de preços. Todavia, desta vez, o FED fez corte nas taxas de juros e, curiosamente, não houve aumento da liquidez no mercado de criptomoedas, sequer o Bitcoin subiu sua cotação. Por que isso? O que está havendo? Pois, no final de 2025, houve diminuição na taxa de juros dos Estados Unidos sem que isso se refletisse em elevação no preço do Bitcoin. O que está acontecendo? Por que o capital não migrou dos ativos fixos em que estavam para os ativos de risco das criptomoedas, que se tornam mais lucrativas com a diminuição daquelas taxas?
É que as baleias veem no mercado uma possibilidade de crise à vista, e querem proteger seu capital adquirindo ativos como ouro e outros metais que lhes possam dar a garantia de segurança na preservação do patrimônio investido. Mas por que não elegeram, desta vez, o Bitcoin, já que é um ativo de renda variável que se coloca com as propriedades de raridade e deflação?
O motivo para isso estar acontecendo é que o cenário econômico atual inspira cautela para os grandes investidores, e depende da liquidez necessária para que desperte nas grandes baleias apetite para o risco. E o Bitcoin está se ressentindo por falta de liquidez, sem crescimento significativo no valor circulante de seu mercado. O volume de capital está paralisado, sem crescimento. Não está ocorrendo injeção de capital, coisa que sempre vinha acontecendo. De fato, há uma postura de aversão ao risco, e os grandes investidores aguardam sinais mais nítidos antes de ampliar suas posições.

Nota-se o início de pânico no mercado de criptomoedas. O sentimento de alto risco predomina, impede uma recuperação do Bitcoin no curto prazo e favorece retrações constantes no mercado de criptomoedas, prejudicado pela queda recente do Bitcoin e outras criptos. A aversão ao risco fez a taxa de crescimento do Bitcoin parar de acelerar, gerando correção de valores. O atual preço da criptomoeda indica que a queda na atividade pode piorar. O Bitcoin oscila, refletindo indecisão no mercado, enquanto aguarda uma direção mais clara. Assim, o Bitcoin está a iniciar 2026 com queda.

Enquanto isso, a pressão vendedora persiste, com os fundos ETFs negociados em bolsa apresentando oscilações negativas. O Fundo Negociado em Bolsa (ETF) é um fundo de investimento que pode ser comprado e vendido em uma bolsa de valores da mesma forma como se faz com uma ação individual. Ele replica a evolução de um mercado específico, portanto é indexado ao comportamento de seus ativos no mercado. Logo, um ETF de Bitcoin acompanha o preço do Bitcoin, e os ETFs de criptomoedas estão apresentando fluxo negativo. Seus fluxos diários marcam uma das maiores saídas na história do mercado, e está dependente do sentimento de risco e da estabilidade das criptomoedas.

Por sua vez, a rentabilidade das mineradoras piorou em razão do mau desempenho do Bitcoin; a queda nos preços evidencia a pressão sobre as mineradoras, já que os preços diminuem, com reflexo na pouca atividade de mineração, que está cada vez mais cara e complexa. A rentabilidade da mineração está sob pressão e próxima da mínima histórica.

Muitas operadoras estão à beira da operação no prejuízo; elas tiveram uma queda de 20% em receita diária de recompensas por blocos no ano de 2025. Com lucros em queda, grandes operadoras estão migrando parte de seus data centers para o setor de Inteligência Artificial, alugando suas instalações para computação de alto desempenho, garantindo retornos mais previsíveis e lucrativos, a ponto de o mercado de ações, agora, avaliar as empresas mineradoras com base em seu potencial de Inteligência Artificial, e não mais em sua exposição ao mercado de criptomoedas.

Agrava-se o fato de o Bitcoin, atualmente, estar integrado ao mercado financeiro tradicional e passar a correlacionar-se mais com o ciclo econômico global. Os ativos digitais não estão mais operando fora da economia tradicional, como acontecia em seus primeiros anos de existência, quando operavam sem interação com bancos ou governos; mas, hodiernamente, o Bitcoin relaciona-se à economia tradicional, reagindo a indicadores econômicos e movimentos de bolsas de valores, funcionando como um ativo especulativo integrado ao sistema financeiro global. Por isso, o Bitcoin não resiste mais a crises globais. Nos últimos quatro anos, houve ingresso de investidores institucionais no mercado de criptomoedas, expondo o Bitcoin aos mesmos fatores que mexem com o humor dos mercados, criando uma correlação com o comportamento de outros ativos.

Infelizmente, muitos analistas técnicos debruçam-se sobre os ciclos passados para procurarem estabelecer como será o comportamento futuro do Bitcoin. Espelham-se comparando a projeção de gráficos estatísticos em busca de coincidências que possam repetir-se para tentar constatar ocorrências atuais que venham a acontecer.

Embora tal tipo de análise técnica seja bastante válida na previsão do mercado de capitais, deve-se levar em conta que isso pode ser comprovado em mais de um século de comportamento das ações em bolsas de valores; porém, não é o caso das criptomoedas, visto que ainda não atingiram duas décadas de existência. É um mercado novo que não respalda o embasamento de um histórico de sucessão de gráficos e submete a uma lógica bastante errática os chamados “analistas técnicos” que se prendem apenas a tal método, esquecendo o imenso valor incidente do mercado global e da realidade geopolítica e econômica internacional. Assim, os ciclos passados não devem ser vistos como um roteiro para o futuro do Bitcoin.

Pode estar havendo indícios de exaustão temporária do Bitcoin, com a possibilidade de o mercado de criptomoedas poder levar alguns meses para recuperar-se. Basta observar que o volume de negociações do Bitcoin diminuiu progressivamente, indicando que há menos interesse dos grandesinvestidores em sustentar o movimento atual, consolidando tendência de baixa; esse movimento dá indícios de exaustão. Ao mesmo tempo, o interesse em aberto nos contratos futuros caiu acentuadamente.

Além disso, os fluxos de ETF de Bitcoin sinalizam cautela institucional. No momento em que escrevo este artigo, já temos seis semanas de fluxos de saída, contraindo liquidez. Essa queda altera a estrutura do ciclo atual e reacende o questionamento sobre até onde o preço pode cair antes de encontrar um fundo consistente.

O mercado de criptoativos está precisando de novas notícias ou novos investimentos. Sua capacidade de recuperação diminuiu e alguns detentores de criptomoedas estão vendendo-as pelo seu preço de custo ou mesmo com um pequeno prejuízo, sinalizando um aumento do estresse do mercado.

Por outro lado, está existindo uma desorganização entre moeda, ações e renda fixa, tipificando uma emergente crise de mercado, o que faz os investidores correrem para o ouro (os contratos futuros do ouro bateram novo recorde). Tensões na Venezuela, Ucrânia e Oriente Médio também impulsionam o ouro, assim como a desvalorização do dólar está favorecendo o ouro. Os bancos centrais também ampliaram a exposição ao ouro, em muitos casos refletindo o esforço de diversos países em reduzir a dependência do dólar.

Tradicional porto seguro em momentos de crise, este rali do ouro é sustentado pela combinação de incertezas geopolíticas, compras efetuadas pelos bancos centrais e pelo receio de sobrevalorização de empresas de tecnologia e Inteligência Artificial no mercado acionário global. Ademais, a subida do ouro também é decorrente de os grandes investidores se defenderem devido a preocupações com os enormes déficits fiscais dos Estados Unidos.

A atitude defensiva das grandes baleias em relação ao Bitcoin e, por decorrência, ao mercado de criptomoedas, advém do fato de o grande capital percebersinais de uma bolha especulativa no mercado financeiro a partir do crescimento exacerbado das empresas de inteligência artificial e de tecnologia. A onda de gastos nesse setor está superaquecida. Existe uma supervalorização das ações de inteligência artificial em Wall Street.

É notável que as valorizações rápidas dos setores de Inteligência Artificial estão descoladas dos lucros e das receitas. Acontece uma euforia generalizada, um excesso de alavancagem, o que deixa em alerta as grandes baleias que investem no setor de criptoativos, temendo que essa sobrevalorização da Inteligência Artificial sofra risco de um estouro. Como exemplo, temos que, nos últimos cinco anos, as ações da Nvidia, maior produtora de semicondutores usados em Inteligência Artificial, valorizaram mais de 1.200%. Outras companhias de tecnologia registraram imensa expansão nos últimos cinco anos, como Microsoft (142%), Meta (158%) e Alphabet (220%), em descompasso com o índice de Wall Street, que subiu bem menos – 96% no período.

A explosão de uma bolha especulativa em torno das empresas de Inteligência Artificial pode desdobrar-se numa crise do sistema financeiro internacional. Ela atingiria, especialmente, o Bitcoin, em razão de ser um produto originário dos meios digitais, o qual ficou muito atrelado ao movimento da Nasdaq, a bolsa de valores norte-americana que concentra as maiores companhias de tecnologia.

Assim sendo, há preocupações das grandes baleias com uma bolha em inteligência artificial, embora grande parte dos investidores só vá ter consciência de que a Inteligência Artificial se encontra dentro dessa bolha até que ela venha a explodir. Como dissemos acima, éuma bolha que vem sendo alimentada pelo número cada vez maior de investidores no setor e pelo volume elevado que as empresas de tecnologia têm dedicado à expansão de seus negócios. Contudo, não há pessoas nem recursos suficientes para implementar trilhões de dólares de investimentos em inteligência artificial. O mercado está errando ao precificar um crescimento que pode demorar a chegar.

Os investimentos feitos nas empresas de inteligência artificial e no uso da tecnologia não vão conseguir entregar a receita correspondente. Vai-se perder uma quantidade fenomenal em dinheiro. O risco de correção acentuada no mercado aumentou; muitas empresas quebrarão. Inclusive, as sete maiores empresas de tecnologia no mundo – as Sete Magníficas: Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, Nvidia, Meta (Facebook) e Tesla – já perderam US$1,7 trilhão emvalor de mercado no último mês de novembro.

É isso que se encontra por trás da estagnação atual do Bitcoin. As grandes baleias pararam de investir para valer, por temor de uma crise no mercado.Guará-DF, 30 de dezembro de 2025
SALIN SIDDARTHA

Fonte: Contexto exato

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